Shiatsu é um cuidado em que o coração se exprime através das mãos. Neste artigo faz-se uma reflexão sobre amor terapêutico que oferece ao corpo a possibilidade de descansar, confiar e reencontrar-se.
A 6 de dezembro de 1906, quando a sua relação com Carl Gustav Jung ainda estava a nascer, Sigmund Freud escreveu ao então jovem psiquiatra suíço uma carta contendo uma frase inesperada. A psicanálise, dizia ele, era, essencialmente, uma “cura através do amor”.
Freud referia-se a uma força discreta e profunda – à qualidade da relação que permite a alguém sentir-se visto, escutado e acompanhado no seu processo de transformação.
João Carlos Melo, psiquiatra, psicoterapeuta e autor nosso contemporâneo, recuperou essa história como mote para um inspirador artigo intitulado O Amor que Cura. O amor, lembra, pode não ser o único fator terapêutico, mas será talvez aquele que permite que os outros processos curativos façam o seu trabalho.
Na prática do Shiatsu, reconhecemos essa mesma verdade pela via do corpo, da presença e do toque. Também aqui existe um amor que cura. Um amor que se aproxima, que espera e escuta. É um amor que se manifesta na qualidade do contacto, no silêncio atento, no ritmo e na firmeza branda da mão.
Na psicoterapia, o cuidado começa muitas vezes pela escuta. O terapeuta escuta as palavras, os silêncios, as hesitações, as repetições, aquilo que é dito e aquilo que ainda não encontrou forma de ser dito. Escuta para que a pessoa se sinta reconhecida, pensada e acolhida na sua singularidade.
No Shiatsu, também escutamos. Mas escutamos com as mãos.
Escutamos a respiração, a temperatura da pele, a tensão dos tecidos, a mobilidade das articulações, os pequenos movimentos de defesa ou de entrega à pressão das nossas mãos. Escutamos o modo como o corpo recebe a pressão, como resiste a ela, como cede, como pede menos, como permite mais e nos deixa “entrar” suavemente. Escutamos aquilo que o corpo revela antes das palavras e para além delas.
Tal como a escuta do psicoterapeuta, a escuta com as mãos é uma escuta ativa, interessada e empática. É uma forma de presença que não interpreta à pressa, não força um sentido nem exige uma resposta. Tal como o psicoterapeuta escuta sem se precipitar, no Shiatsu toca-se sem invadir.
É uma escuta silenciosa, feita de pressão, pausa e respiração. É um modo de dizer com as mãos: estou aqui. É um amor que toca com presença e sem apego.
A mão como extensão do Coração
No centro da palma da mão encontra-se um ponto de acupressão chamado Lao Gong. É o oitavo ponto do canal energético do Mestre do Coração (ou Pericárdio).
A expressão chinesa Lao Gong pode ser traduzida como “Palácio do Labor”, “Palácio do Esforço”, ou “Palácio do Trabalho”, entre outros. Ou seja, está associado à imagem do trabalho manual, da possibilidade de revitalização física, mental e espiritual, mas também à função do Pericárdio, que envolve e protege o Coração.
Na tradição taoista, trata-se de um importante centro energético, já que é através do centro das palmas das mãos que no Qi Gong se aprende a sentir e a escutar o Qi (a força vital das Medicinas do Leste Asiático).
Pela sua ligação ao Pericárdio, ou Mestre do Coração, Lao Gong ajuda-nos a compreender o toque como um gesto que cuida, protege, escuta e se aproxima sem invadir. É aqui que a mão e o centro da sua palma se cruzam com a ideia de amor terapêutico.
Um amor que se exprime na forma como a mão pousa, espera, sente e responde. Um amor que respeita o limite do outro. Um amor que não procura dominar o processo, mas criar condições para que o paciente se reencontre consigo próprio.
No contexto do Toyohari (uma forma de acupuntura japonesa não invasiva baseada na palpação), o mestre Koryo Nakada falava da mão como uma extensão do Coração. Segundo ele, o facto de o Lao Gong ou 8 do Mestre do Coração se situar na palma da mão, significa que é a partir do Coração que todo o toque é feito. Quer dizer, que o contacto entre o paciente e o terapeuta é feito a partir desse ponto.
Extrapolando: cada toque pode ser entendido como uma continuação da função do Pericárdio – guardar o Coração, proteger a vida sensível, acompanhar aquilo que em cada pessoa permanece vulnerável.
Tratar, neste sentido, não é apenas corrigir. É cuidar com amor e no Shiatsu, tocar é sinónimo de cuidar.
Tokujiro Namikoshi, fundador do Shiatsu, dizia que “o coração do Shiatsu é como o amor de uma mãe; a pressão sobre o corpo faz brotar as fontes da vida”.
Por conseguinte, Shiatsu não se resume à aplicação de pressão, de mobilização de articulações ou percorrer meridianos. Shiatsu é oferecer ao corpo de outra pessoa uma qualidade de atenção que não exige, não invade e não se impõe. Ao trabalhar, a mão protege, escuta e acolhe.
Cuidar não é apenas fazer algo por alguém. É estar com alguém de uma forma inteira, presente e respeitosa.
Intimidade terapêutica
Uma sessão de Shiatsu cria uma intimidade particular. Trata-se de uma proximidade protegida por limites claros, porque intimidade só é terapêutica quando há limite. O toque converte-se em cuidado porque há respeito.
O paciente ao deitar-se vestido no futon ou na marquesa, fecha os olhos e entrega-se. Co isso, permite conscientemente que outro ser humano se aproxime e escute o seu corpo com as mãos. Esse gesto exige confiança.
O terapeuta aproxima-se e toca, criando condições para que o corpo respire, para que as defesas abrandem e que algo, por vezes muito antigo, encontre espaço para se reorganizar.
O corpo sente quando é aceite
Muitas pessoas chegam a uma sessão com vergonha do próprio corpo, da dor. Vergonha da tensão, do cansaço ou de não conseguirem relaxar. Outras chegam defendidas por couraças invisíveis e autoimpostas. Com o abdómen preso, os ombros erguidos, a respiração curta, os músculos tensos, a pele fria e o pensamento aprisionado no mesmo círculo de preocupações.
O Shiatsu não vai contrariar imediatamente essas defesas. Pelo contrário, começa por reconhecê-las, por aceitá-las e acolhê-las. Familiariza-se com elas e conquista-lhes a confiança e elas começam a abrandar por si.
O corpo sente as mãos pousadas com atenção, uma pressão estável, um ritmo previsível e uma pausa no momento certo. Tudo isto comunica ao sistema nervoso uma mensagem simples: “Estás em segurança. Não tens de recear nada. Não tens de provar nada.”
É aqui que, muitas vezes, algo começa a mudar.
A respiração abranda. O rosto suaviza. O corpo relaxa finalmente. A pessoa deixa-se ir, por alguns instantes, abandonando o modo de vigilância permanente.
Ter o outro nas mãos
João Carlos Melo escreve sobre a importância de o paciente sentir que existe dentro do terapeuta; de sentir que é pensado, reconhecido, acolhido como alguém com significado. No Shiatsu, essa existência passa pelas mãos.
Quando o terapeuta toca com presença, o corpo da pessoa deixa de ser apenas um conjunto de sintomas. A dor lombar, a tensão nos ombros, a respiração curta, os pensamentos ruminantes pertencem a uma pessoa concreta, com história, cansaço, defesas, perdas, desejos e modos próprios de estar no mundo.
Shiatsu é dar atenção plena a quem se tem entre mãos. É nesta entrega do terapeuta que o Shiatsu se distingue de uma técnica mecânica. A pressão pode ser correta, o meridiano pode estar bem escolhido, a postura do terapeuta pode ser exemplar. Mas, se não houver presença, o toque é vazio. Pode aliviar, mas dificilmente transforma.
O terapeuta não cura, oferece presença, escuta e direção
Em qualquer prática terapêutica há uma tentação frequente: querer curar o outro, resolver um problema, produzir um efeito e, sobretudo, demonstrar que a técnica funciona.
Tudo isso é legítimo. Contudo, o Shiatsu ensinou-me outra coisa. Muitas vezes, a sessão mais importante não é aquela em que a dor desaparece, mas sim aquela em que a pessoa, talvez pela primeira vez em muito tempo, sente que pode descansar sem que lhe exijam, que pode verdadeiramente desligar, que pode ser tocada sem ser invadida, que pode existir sem se ter de se justificar.
O terapeuta não cura, oferece presença, escuta e direção. Depois, o corpo faz o seu caminho.
Este texto nasceu da leitura de O Amor que Cura, de João Carlos Melo. A ele deixo a referência e o agradecimento, porque há textos que acendem uma luz sobre aquilo que, de algum modo, já pressentíamos.
Não se trata de transpor a psicoterapia para o Shiatsu, nem de confundir campos clínicos distintos. É apenas o reconhecimento de uma afinidade essencial: nenhuma técnica é verdadeiramente terapêutica quando se afasta da qualidade humana da relação.
No Shiatsu, essa relação passa pela mão em cujo centro habita o Lao Gong, um ponto do Mestre do Coração.





