Uma prática universal e milenar
A aplicação de ventosas é uma prática terapêutica que atravessa culturas, línguas e fronteiras. Embora hoje seja muitas vezes associada à Medicina Tradicional Chinesa, a sua história é muito mais vasta e antiga, revelando-se verdadeiramente transversal à humanidade. Ao longo dos séculos, diferentes povos descobriram – de forma independente ou por transmissão cultural – que criar sucção sobre a pele, com o auxílio de recipientes aquecidos ou dispositivos de vácuo, podia aliviar dores, mobilizar fluidos e apoiar o corpo no seu processo natural de recuperação.
Do Egito à China
Os vestígios mais antigos da prática de a ventosaterapia surgem no Egito faraónico, por volta de 1550 a.C., no célebre Papiro de Ebers. Ali encontramos descrições claras do uso de recipientes de metal ou cerâmica aquecida para tratar dores, febres, inflamações e problemas menstruais. Para os médicos egípcios, a aplicação de ventosas era parte integrante dos rituais de purificação e reequilíbrio dos humores corporais.
Mais a oriente, nas férteis terras da Mesopotâmia e na antiga Pérsia, também se utilizavam métodos semelhantes. Embora os registos pré-islâmicos sejam mais escassos, a prática manteve-se viva e, com o advento do apogeu islâmico, foi sistematizada por médicos como ar-Rāzī e Avicena. Estes integraram-na na Hijama, a aplicação húmida, de ventosas que envolve pequenas incisões superficiais para extrair sangue estagnado, considerada tanto terapêutica como preventiva. É uma técnica que ainda se usa no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa.
Na Índia antiga, a tradição ayurvédica descreve o uso de ventosas em textos como o Sushruta Samhita, aplicadas para remover ama (toxinas), estimular a circulação e restabelecer o equilíbrio dos doshas, especialmente em distúrbios musculares, articulares e cutâneos.
Na China, a técnica conhecida como Bá Guàn (拔罐 , “extrair com jarro”) remonta pelo menos à dinastia Zhou (1046–256 a.C.), tornando-se amplamente utilizada na dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.). Inserida no corpo teórico da Medicina Tradicional Chinesa, a aplicação de ventosas é usada para mobilizar o Qi (氣) e Xue (血, sangue), expulsar fatores patogénicos como vento, frio ou humidade e desbloquear os meridianos energéticos.
Hipocrates, Galeno e os árabes
No mundo ocidental, a prática chegou à Grécia clássica, onde Hipócrates (séc. V a.C.) descreveu a anárrhophēsis (ἀνάρροφησις) como útil no tratamento de febres, dores lombares, congestões e problemas menstruais. Mais tarde, em Roma, Galeno (séc. II d.C.) preservou e aprofundou esses conhecimentos, usando a ventosatio para restaurar o equilíbrio dos humores e aliviar inflamações.
Durante a Idade Média e o Renascimento, as ventosas continuaram presentes na medicina europeia, aplicadas tanto por médicos formados como por curandeiros e parteiras. Só no final do século XIX, com o avanço da medicina farmacológica, começaram a cair em desuso no Ocidente, sobrevivendo sobretudo na medicina popular e no mundo árabe-islâmico, onde a Hijama mantém grande importância cultural e religiosa.
Na atualidade
No século XXI, a conheceu um renascimento global. Hoje, é aplicada em clínicas de Medicina Tradicional Chinesa, consultórios de fisioterapia e reabilitação, contextos de medicina desportiva, osteopatia e terapias complementares como shiatsu ou massagem terapêutica. Pode ser feita de forma seca, usando fogo ou bombas de vácuo; deslizante, movimentando a ventosa sobre a pele com óleo; ou, em alguns contextos específicos, húmida, combinando sucção com microincisões.
Os benefícios mais frequentemente procurados são o alívio de dores musculares e articulares, a libertação da fáscia, a melhoria da circulação, o relaxamento profundo e o apoio à recuperação física. As marcas circulares que surgem após a sessão não são hematomas, mas sinais temporários de aumento da irrigação local, desaparecendo naturalmente em poucos dias.
Apesar de ser uma prática geralmente segura, é essencial que seja realizada por profissionais qualificados, capazes de avaliar se a técnica é adequada a cada pessoa. Deve ser evitada ou adaptada em situações como gravidez (em determinadas zonas), distúrbios de coagulação, pele fragilizada ou infetada e doenças graves que exijam supervisão médica. Integrada num plano de cuidados adequado, a ventosaterapia permanece, tal como há milénios, uma ponte entre tradição e inovação, unindo saberes de todos os cantos do mundo num gesto simples e profundamente humano.
Perguntas frequentes
As ventosas deixam sempre marcas?
Nem sempre. As marcas circulares refletem a resposta da circulação e tendem a desaparecer naturalmente entre 2 e 7 dias.
A aplicação de ventosas é dolorosa?
Geralmente não. A pressão é ajustada para conforto. Pode haver sensação de calor ou leve “repuxar”, mas não é considerado doloroso.
É seguro para todos?
Quando aplicadas por um terapeuta qualificado, sim. Há, no entanto, precauções especiais para grávidas, pessoas com distúrbios hemorrágicos ou pele lesionada.
É uma prática exclusivamente oriental?
Não. A ventosaterapia foi amplamente usada no Ocidente desde o Antigo Egito, passando pela Pérsia, Grécia, Roma e mundo islâmico.
As ventosas usam-se apenas para dores musculares?
Não. Embora seja muito conhecida pelo alívio de dores musculares e tensão, a ventosaterapia tem aplicações mais amplas, especialmente na visão da Medicina Tradicional Chinesa. É utilizada em casos de constipações, tosse, fadiga, distúrbios digestivos e retenções de líquidos, entre outros. Em diferentes culturas, foi também usada para apoiar funções respiratórias, circulatórias e até ginecológicas. A sua versatilidade depende da avaliação clínica e da abordagem terapêutica de cada profissional.